sexta-feira, 11 de julho de 2008

Escrever é Escrever

Por Gabriel Perissé

Escrever é a única maneira de viver, não a minha vida, esta vida que me escapa por entre os dedos a cada gole da minha sede.
Escrever é escreviver outras vidas, em outras dimensões, tempos paralelos.
Escrever é a única louca esperança dentro de um manicômio... e fora dele também.
Escrever é deixar no papel a impressão digital do ser que somos.
Escrever é descrever o que pressentimos, o que dizem os nossos cinco sentidos, mesmo que não faça o menor sentido.
Escrever é sempre tarde, é sempre cedo, é sempre na hora certa.
Escrever é algo de que se tem necessidade, é algo de que não se tem necessidade alguma.
Escrever é incurável.
Escrever é sempre viver o sucesso no fracasso, a alegria de poder estar triste, o nunca do sempre, o infinito do finito, o absolutamente relativo.
Escrever é ato de amor, intimidade exposta, introspecção devassada, solidão solidária.
Escrever é falar com quem não vemos, ouvir quem nada nos diz, conversar com quem nos despreza, aprender com quem nada ensina, ensinar coisas a quem não quer aprender nada.
Escrever é catarse, é espionagem, é propaganda enganosa, mistério da fé, é terapia para todo mundo.
Escrever é recordar o que não aconteceu, prever a nostalgia, admirar-se com o banal.
Escrever é condenar-se. O cardeal Richelieu (desenhado como um ser terrível por Alexandre Dumas) disse certa vez: "Mostrai-me seis linhas manuscritas pelo mais honrado dos homens, e acharei nelas todos os motivos para enforcá-lo".
Escrever é testemunhar, é mentir, é revelar, é engrupir, é purificar-se, é resistir, é matar, é assumir, é transladar, é omitir, é calar, é sorrir.
Escrever é vício, é adiar a morte, é "um ócio trabalhoso", como disse Goethe.
Escrever é fugir, é voltar, é abrir uma janela, é fechar-se em casa, é queimar a casa, é reconstruir a casa, é pregar-se na cruz, é ressuscitar, é recriar o mundo.
Escrever nos torna mais humanos. Nem por isso mais virtuosos.
Escrever é roer os ossos do medo. Repudiar a felicidade como facilidade. É inspirar-se quando não há inspiração. É pintar, musicar, teatralizar, filmar, esculpir, dançar.
Dançar com as palavras é a dança mais vã - no entanto dançamos mal rompe a manhã.
Conforme a música, conforme a dúvida.
Sempre inconformados.

3 comentários:

Carolina disse...

Blog antigo, mas que nunca foi postado... então aqui vai os meus relatos, dou pistas de mim por ai quem me achar, achou, quem me pegar, pegou... mas sempre quero ser achada ;)

Carolina disse...

Eu sou assim vivo me pagando falando comigo mesmo... meu pai vive dizendo que tenho um mundinho particular. Hoje ele resolveu conquistar o mundão.

Carolina disse...

As vezes acredito que serei uma boa escritora e que as pessoas vão se identificar com o que leêm, e usarão minhas frases como expressões de seus corações, na pior das hipoteses serão usadas apenas como "sorte de hoje".
E tudo que eu disse por mais absurdo que pareça, muitas vezes só para completar uma rima vulgar será entendido da forma mais geniosa possível. E é mesmo...